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Talento Estratégico

Para driblar apagão, empresas buscam qualificar profissionais

Autor: Flávia D’Angelo
Fonte: especial para IW Brasil Publicado em 30 de Outubro de 2013 às 08h01

Saiba como Bradesco e Natura trabalham para reter os melhores talentos da área de TI

A carreira em TI sempre foi conhecida por ser algo de vanguarda e atrativa do ponto de vista de desafios e de salário. Vagas e plano de carreira nunca foram problemas. No entanto, de alguns anos para cá, o departamento de tecnologia vive uma situação, no mínimo, curiosa: ao mesmo tempo em que há uma pressão para uma atuação mais estratégica e de suporte às decisões da companhia, afora toda a inovação inerente ao departamento, exigindo um novo perfil profissional, a área sofre em atrair os melhores talentos. E são vários os motivos, como escassez de profissionais, competição com empresas como Google e Facebook, que atraem os jovens mais talentosos, e até disputa com as demais áreas de negócio. Como costumam dizer alguns CIOs, trabalhar no departamento de TI perdeu um pouco do glamour e existe todo um trabalho de retenção a ser feito. As empresas, cada vez mais, buscam por um colaborador que consiga trafegar tanto no ambiente de novas tecnologias como no de negócios. O viés estratégico passou a valer ouro para as companhias e, de certa forma, provocou um apagão de talentos no setor. E essa falta do que o mercado tem chamado de profissionais estratégicos para TI é acompanhada de um aumento na demanda. A área de TI continua aquecida do ponto de vista de novas vagas. O setor tem crescido acima do Produto Interno Bruto (PIB) e é responsável por 4,5% de toda riqueza produzida no País. Projeções da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) dão conta de que o segmento pode ampliar essa participação no PIB 6,5% até 2020. Segundo o diretor de educação e RH da entidade, Sérgio Sgobbi, o crescimento para 2013 deve ser maior que os 10% observados no ano passado. No entanto, ele faz um alerta: o Brasil ainda não prepara seus talentos para preencher essas vagas. ?A nossa formação é insuficiente e, por consequência, a disponibilidade de profissionais formados não atende a demanda?, opina. A Brasscom calcula que, até 2014, o déficit de mão de obra será maior no DF, PR, SP, RJ e RS; já nos oito estados que mais empregam profissionais de TI (BA, DF, MG, PE, PR, SP, RS e RJ) esse déficit será de 134%. Embora existe uma disputa por esse perfil diferenciado, a demanda por esse novo profissional não esbarra apenas na oferta, mas na cultura das empresas. As companhias, no geral, ainda são reticentes à inserção desse colaborador nas decisões estratégicas e, tampouco, à migração de TI para áreas de negócio. A tendência, no entanto, é de mudança. Movimento recente Pegue como exemplo TI e finanças, duas áreas que antes se falavam pouco para decidir orçamento e que, de três anos para cá, passaram a ter mais interação. A constatação é parte de uma pesquisa global realizada pela consultoria Robert Half com mais de dois mil CFOs de 14 países, sendo 100 brasileiros. O estudo mostra que, no período, a colaboração entre os departamentos cresceu 75%. Iniciativas de Big Data e implantação de novos sistemas foram apontados pelos CFOs como os facilitadores da aproximação. Alexandre Attauah, gerente responsável pela divisão de Finanças e Contabilidade da Robert Half, afirma que a TI passou a ser mais reconhecida nas empresas pelo seu papel estratégico e isso colabora para o crescimento da interação com as outras áreas. ?É a mesma transformação pela qual os departamentos de finanças, RH e jurídicos passaram?, complementa. E parte dessa mudança passa pelo aprendizado da TI em traduzir a linguagem técnica para os negócios, e quem sabe fazer isso com proeza é visto com bons olhos pelo mercado. Esse movimento de maior integração e de mudança no perfil da equipe de TI, no entanto, é um pouco recente, como avalia Caroline Cadorin, gerente de recrutamento de engenharia, logística e TI da consultoria Hays. No entanto, ela afirma que em todos os processos seletivos que realiza para seus mais diversos clientes na área de TI, existe uma orientação para buscar por alguém com conhecimento técnico e também com um viés de negócio. Já Ione Coco, vice-presidente regional para América Latina do Gartner, vai um pouco além, frisando ser essencial que uma pessoa que atue nessa área tenha muito foco no negócio e entenda como a tecnologia pode ser o diferencial competitivo. ?Se ficar no mundinho da TI, ela não vai ser útil para a empresa em dois, cinco ou dez anos. Ela deve ter a visão do amanhã e ter a capacidade de investimento nela mesma.? O CIO da Jaraguá Equipamentos, Diego Lima, que integra a leva dos executivos de TI mais jovens, afirma que os gestores têm grande papel nessa mudança. ?As empresas precisam valorizar esses profissionais, pois ainda não são todas que enxergam a área de TI como uma área importante. Com isso, os profissionais se sentem desvalorizados. E nós, gestores de TI, podemos tentar mudar a visão das companhias nesse sentido?, pontua, ao falar sobre a baixa atratividade do emprego em TI. Um setor que não para A dinâmica desse mercado também é grande influenciadora na captação de talentos. Trata-se de um setor que avança de maneira muito rápida e o cenário de oferta e demanda é alterado constantemente. Todos os anos, centenas de novas empresas e tecnologias surgem, o que força uma atualização constante do profissional. E esse tipo de novidade não só desafia os empregados à uma atualização como pode promover um movimento migratório entre áreas. ?São profissionais da área de engenharia, administração e de economia que passaram a fazer parte do time de tecnologia?, ressalta Attauah, da Robert Half. As novas tecnologias provocam ainda um déficit sazonal de profissionais qualificados, segundo argumenta Caroline, da Hays. ?No momento de mais demanda do que oferta, o nível de expectativa em relação à capacitação do candidato fica grande, porém, nem sempre eles estão prontos para trabalhar com essas novas tecnologias. Há uma lacuna entre o lançamento e a oferta de cursos e certificações específicas?, comenta. De acordo com a especialista, outro ponto importante é o conteúdo oferecido nos mais diversos cursos. ?Não existe uma regra ou um conselho que faça uma fiscalização para entender como é feita a formação. Se as disciplinas são as adequadas para que o profissional saia qualificado e pronto para assumir os desafios das empresas?, relata. Para driblar o problema da falta de profissionais especializados e com visão de negócio, o Bradesco tem como premissa formar seus próprios talentos. Aurélio Conrado Boni, vice-presidente de tecnologia do Bradesco, lembra que a instituição tem a Fundação Bradesco que forma jovens em diversas áreas técnicas, entre elas, a TI. ?Temos atualmente mais de 100 mil colaboradores na organização de forma que nossas necessidades são supridas internamente. Além disso, fazemos investimentos em treinamento para especialização do próprio pessoal de TI, hoje cerca de 3,5 mil pessoas?. Para Boni, além das habilidades técnicas adquiridas academicamente e da experiência profissional, o conhecimento do negócio, a habilidade de relacionamento e de comunicação têm sido cada vez mais necessários. Além da TI Para atender as expectativas, a atualização profissional, bem como a pessoal, tem tido um grande peso na hora das contratações. Caroline, da Hays, afirma que problema está na pouca oferta de profissionais qualificados. Para a especialista, além da capacitação técnica, essa pessoa precisa ter outras competências como a capacidade de relacionamentos interpessoais e de comunicação. E, como ressalta Attauah, da Robert Half, engana-se quem pensa que essa exigência é apenas para os líderes da área. ?Hoje não é uma característica exigida apenas para o cargo de CIO. Os outros níveis não podem mais ser introvertidos e com qualificações restritas à parte técnica, pois é preciso desenvolver um relacionamento e ter uma interface com as outras áreas?, conclui. Agenor Leão, CIO da Natura, segue na mesma linha, e frisa que não basta versatilidade e boa capacidade de negociação. ?Tem que desenvolver relacionamento com os diversos stakeholders (clientes, fornecedores), ter jogo de cintura e flexibilidade para lidar com os problemas e situações adversas, além de capacidade de trabalhar em rede, autonomia a automotivação.? O desafio de atrair e reter E se não bastassem os desafios de busca por esses profissionais, a TI tem que lidar com um turn over crescente, sobretudo, pelo fato de os mais jovens não se sentirem atraídos pela carreira no departamento de tecnologia. Nesse caso, um trabalho forte nos planos de carreira se mostra essencial. A concorrência por talentos é alta e eles acabam ganhando bem muito cedo. Ficam com expectativa de assumir altos cargos, mas ainda não são maduros o suficiente para tal responsabilidade. Uma forma de retê-los é oferecer oportunidade para que não fiquem obsoletos, incentivando o desenvolvimento profissional. E ainda que salário não seja o principal problema dessa área, no Brasil, a demanda continuará empurrando o valor da remuneração para cima, mesmo sem a velocidade de anos anteriores, quando chegou a mais de 10% ao ano. Em 2013, deverá ficar em torno de 6% ou 7%, segundo projeções da Michael Page. Oferecer mais flexibilidade e prêmios atraentes também pode ser uma boa fórmula. Caroline, da Hays, diz que profissionais de TI estão mais atentos a uma carga horária diferenciada, flexibilidade de horário, ambiente agradável para se trabalhar, benefícios que sejam convertidos em qualidade de vida e as empresas precisam realmente ter um plano de investimento. ?Não tem milagre. Tem que haver um investimento por parte das empresas, melhorar o orçamento para tecnologia para que isso seja revertido em profissionais engajados que busquem alternativas para melhorar aquilo que têm a oferecer para a companhia?.
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