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Carreira

Você está velho demais para TI?

Autor: Kevin Casey / InformationWeek EUA
Fonte: InformationWeek EUA Publicado em 06 de Dezembro de 2013 às 10h19

Pode ser tópico de tabu entre empregadores, mas veteranos da TI dizem que se trata de uma realidade na indústria -- afetando inclusive diretores de tecnologia

É ilegal que empregadores baseiem decisões de contratação ou demissão na idade do profissional. No entanto, a discriminação explícita pode ser difícil de comprovar e a idade pode afetar, de forma mais sutil, a carreira de uma pessoa ? talvez ainda mais ao se tratar de um profissional de TI. O edaísmo, ou o preconceito baseado em idade, não é novidade na área de TI, mas, geralmente, não passa dos portões do Vale do Silício e de sua jovem cultura startup. O fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, por exemplo, disse ao público do evento Y Combinator Startup School, em 2007: ?Quero enfatizar a importância de ser jovem e técnico. As pessoas mais jovens são mais sagazes?. Zuckerberg é hoje um decaído de 28 anos, que também é idade média entre os funcionários do Facebook, de acordo com um estudo recente. A idade média da força de trabalho do Google é 29 anos. Porém, os profissionais de TI estendem-se muito além do Vale do Silício e a indústria tecnológica é enorme. Assim como o edaísmo. Gary Huckabone, que vive na região de Detroit, é programador desde os anos 1980, quando ele trabalhava em coisas como VAX/VMS da Digital Equipment Corporation. Mais tarde, ele passou a mexer em UNIX e banco de dados Oracle. Hoje, o foco de Huckabone é em aplicativos desktop .NET e aplicativos web ASP .NET. Atualmente, ele trabalha para uma agência com contratos com três grandes montadoras de automóveis. ?Eu sou um cara velho?, disse Huckabone, 56 anos, em entrevista. O veterano de TI não está reclamando, e ele nunca fez parte de nenhuma queixa de discriminação por idade. Ele também não tem problemas de autoconfiança ? ?Sou bom no que eu faço?, disse Huckabone ? mas ele está cada vez mais ciente de como empregadores podem interpretar sua idade. Antes de seu emprego atual, Huckabone trabalhou para uma empresa de Detroit que o contratou por sua experiência, não apesar dela. ?Os outros seis desenvolvedores eram basicamente recém-formados?, disse ele. ?Eles me contrataram como alguém com alguns cabelos brancos que estava naquele jogo há algum tempo?. No entanto, Huckabone descobriu que a empresa esperava que 60 horas semanais fossem normais para a equipe de desenvolvedores. Diferente de startups que oferecem quotas iguais ou empresas bem estabelecidas, com atraentes planos de incentivo, não havia vantagem alguma naquelas longas horas. ?Eu já trabalhei muito por 50 ou 60 horas semanais, mas sempre com algum tipo de recompensa?, disse Huckabone. ?Não se pode trabalhar tanto assim e não receber nada em troca?. Diferente de seus colegas mais jovens, Huckabone expressou suas preocupações; segundo ele, as coisas chegaram ao ponto de ele pedir por uma tarde de folga e ouvir um não. Ele foi, então, demitido da empresa. De volta ao mercado de trabalho, Huckabone estava otimista ? ele via um próspero setor de software e muitas oportunidades. No entanto, ele percebeu que demoraria mais do que esperado para conseguir o próximo emprego. ?Provavelmente, fiz mais do que o dobro de entrevistas ? é uma estimativa, é claro ? do que faria se tivesse 32 e não 56 anos?, disse Huckabone. ?A gente nunca sabe [se a idade é um fator], porque obviamente ninguém vai te dizer isso e muito pode estar só no seu subconsciente. Acho que muitas pessoas ficam constrangidas de conversar com uma pessoa com tanta autoconfiança. Eu não fico ansioso e implorando por trabalho. É uma postura que diz ?é isto que eu faço e eu sou muito bom, é pegar ou largar??. Não foi a primeira vez que Huckabone desconfiou que sua idade pudesse ser um fator na hora de conseguir um emprego. Em 2010, ele foi contatado para um possível cargo no Google. Na época, Huckabone enxugou seu currículo para ser mais breve. ?Eu removi, provavelmente, meus primeiros 10 anos, só para que o currículo ficasse mais fácil de ler. Não estava tentando esconder minha idade. Queria apenas manter as experiências mais recentes. Sinceramente, ninguém se importa com as minhas atividades em VAX/VMX em 1988?, disse ele. Depois de uma entrevista por telefone e outras duas reuniões online com o Google, que incluíram testes de códigos, Huckabone foi para Mountain View para um dia inteiro de entrevistas pessoalmente. O que não terminou em uma oferta de emprego. Pode ter havido diversas razões pra isso, mas Huckabone percebeu que fora a primeira vez que alguém da empresa o vira pessoalmente. ?Não sei se você já esteve no campus do Google, mas é praticamente um oceano de jovens de 30 anos?, disse Huckabone. ?Eu não acho que eles tenham feito nada conscientemente. Acho que foi o pensamento inconsciente ?não gostamos de pessoas mais velhas, queremos estar cercados de jovens??, disse Huckabone. ?Eu realmente acredito que seja uma coisa inconsciente que prevalece na cultura deles?. Outros profissionais de TI na faixa entre 50 e 60 anos concordam que a idade é um fator evidente ? se não declarado ? especialmente no mercado de trabalho. Michael Meyers-Jouan, 65, foi demitido quatro vezes nos últimos 10 anos. ?Foi se tornando cada vez mais difícil conseguir um emprego novo após cada demissão?, contou via e-mail. ?Em geral, as vezes que recebi uma explicação sobre a rejeição após uma entrevista, me disseram que eu não teria a energia necessária?. Meyers-Jouan reconhece que o salário também foi um problema em alguns casos ? ele queria um salário que estivesse de acordo com suas quatro décadas de experiência em TI. Ele também reconhece que seu atual conjunto de habilidades, que inclui .NET, Visual Basic, C# e SQL Server, tem um ponto-cego visível: desenvolvimento web. ?Eu não podia oferecer uma das áreas que muitas ? senão todas ? as empresas queriam?, disse Meyers-Jouan. ?Às vezes, encontrava empresas dispostas a me darem a oportunidade de aprender sobre aquela área do negócio, mas mesmo essas acabavam me rejeitando?. O profissional graduado no MIT acabou optando pela aposentadoria, mas não era esta sua primeira opção. ?Eu preferia ter continuado trabalhando por pelo menos mais cinco anos se não fossem as constantes rejeições, que eram relacionadas tanto à minha idade quanto às minhas habilidades?, disse Meyers-Jouan. A aposentadoria também não era uma opção para Ken Bodnar, 57, que perdeu seu emprego como diretor de tecnologia em uma empresa de cartão de crédito e transferências financeiras, durante a mais recente recessão. Sua idade, combinada à crise econômica, se tornou um problema instantâneo. ?Eu tinha gravatas mais velhas do que as pessoas que me entrevistavam?, relembra Bodnar por e-mail. ?Eu estava em tecnologia, e tecnologia é um jogo de jovens?. Mesmo depois de reduzir suas expectativas ? Bodnar disse que estava disposto a aceitar cargos mais baixos para voltar para a folha de pagamento de alguém ? as entrevistas não rederam frutos. ?Havia uma discriminação por idade muito, mas muito, sutil. Depois da entrevista inicial, o entrevistador me dizia que eles tinham uma cultura muito especifica e que buscavam um perfil específico de funcionário?, disse Bodnar. ?Uma cultura que consiste em guerras com arma Nerf e um cooler com cerveja na sala do café?. Uma tática usada pela empresa, que Bodnar percebeu, era perguntar sobre a experiência com tecnologias mais novas, como Ruby on Rails ou MongoDB ? mesmo que o uso dessas habilidades não fizesse parte das exigências do cargo. Bodnar acabou escrevendo um livro sobre a experiência, 55 and Scared Sh*tless. Trata-se tanto de um conto sobre ser financeiramente cuidadoso quanto de um manual para a carreira de TI; Bodnar compartilha, sem rodeios, como viveu sem economizar quase nada, o que piorou demais sua situação após perder o emprego. Ele detalha o que considera ser sua reinvenção, que envolveu abandonar a busca por um emprego em tempo integral e optar por ?micro-jobbing? ou ?job-chunking? ? algo semelhante a um freelancer de curto prazo ou trabalhos de consultoria ? assim como a busca por oportunidades de renda passiva. ?Muitas vezes, isso significava trabalhar duro em projetos, mas eles pagavam bem porque precisavam do meu conhecimento. Em outros casos, minha experiência prevalecia sobre as habilidades da geração acne?, disse Bodnar, acrescentando que a necessidade para tais trabalhos é mais comum entre as empresas de pequeno porte, com menos recursos locais. ?Os benefícios de ser contratado assim eram que eles não precisariam me manter na empresa, com um alto salário, quando não precisassem mais de mim. Eu não seria um fardo no programa de benefícios deles e eles não precisariam se preocupar com dinâmicas de equipe e diversidade etária?. Na visão de Bodnar, o ?micro-jobbing? ou o caminho da consultoria é futuro do trabalho para muitas pessoas, especialmente para os profissionais de TI mais velhos que voltarem ao mercado de trabalho. No caso dele, a mudança foi um sucesso. Uma vez que sua renda se estabilizou, Bodnar passou a aceitar quotas em vez de dinheiro por alguns projetos. Como resultado, hoje ele é CTO da SelectBidder.com e acionista de uma empresa de armazenamento em nuvem e privacidade de dados nas Bahamas, onde ele vive atualmente. ?Toda esta experiência negativa teve um lado muito positivo?, disse ele. ?Hoje eu tenho minha autoestima de volta?. Dados quantitativos sobre discriminação por idade em TI são elusivos; empregadores não estão, exatamente, ansiosos por divulgar a prática. Indícios causais, por outro lado, não são difíceis de encontrar. Huckabone, o programador de Detroit, disse que o edaísmo é assunto entre colegas veteranos de TI. ?Definitivamente é o tipo de assunto que surge entre os colegas, e eu acredito que seja muito real, de acordo com o que escuto por aí?, disse ele. ?Os colegas contam casos?. A associação da indústria, CompTIA, não rastreia dados de contratações em TI baseados em idade. No entanto, informações compiladas por sua equipe de pesquisa, baseadas em estatísticas do Bureau of Labor, demonstram uma paralisação em quase 4,6 milhões de cargo de TI nos EUA. O grupo entre 25 e 34 anos preenche 26,4% desses cargos; o grupo entre 35 e 44 anos preenche 29,7%; o grupo entre 45 e 54 anos preenche 12,4%. O edaísmo pode ser mais prevalecente na área de TI do em que outras áreas. ?O consenso geral da comunidade legal é que a indústria de TI parece ter a mais alta incidência de queixas sobre discriminação etária?, disse Monrae L. English, uma advogada da empresa Wild, Carter & Tipton. Monrae disse que a questão geralmente surge de problemas de percepção. Por exemplo, a ideia geral de que um profissional de TI mais velho é mais provável de ter habilidades ultrapassadas, o que está, normalmente, errado. ?Na verdade, a maioria dos casos demonstrou claramente, que um profissional mais velho tem mais noção e conhecimento sobre o mundo da TI?, disse English. ?Um dos meus clientes era, inclusive, um ex-hacker dos anos 70 e, enquanto alguns dos jovens que chegavam conheciam os mais recentes softwares, o profissional mais velho tinha a habilidade de compreender qualquer tipo de software e dar um baile nos funcionários mais novos?. Tempo e planejamento são um problema ainda mais sério do que habilidades quando se trata de idade, de acordo com English. Em termos de tempo, os profissionais mais novos geralmente estão mais dispostos a trabalhar longas horas em cargos assalariados isentos de qualquer pagamento adicional. ?Não é incomum que jovens profissionais de TI trabalhem até 80 horas semanais sem sequer reclamar?, disse English. ?Portanto, quando uma empresa observa um possível funcionário mais novo e um possível funcionário mais velho, vemos empregadores ignorarem a experiência e optarem pelo fator ?tempo?, já que irá conseguir mais sacrifício do profissional mais novo do que do mais velho?. Sobre planejamento, ocorre outro problema de percepção: o profissional típico de TI sabe muito bem o que são as ligações às 2h AM. São ossos do ofício. ?São servidores que caem, alguma coisa precisa de reboot, atualizações, bugs e vírus, que geralmente precisam de atenção imediata?, observa English. Alguns empregadores imaginam que os profissionais mais novos sejam mais adequados para a natureza 24/7 de muitos cargos de TI, e, da mesma forma, imaginam que os profissionais mais velhos, com família e outras responsabilidades, reclamem mais de tais tarefas. ?Gostaria de deixar claro que não estou dizendo que os profissionais mais velhos não estejam dispostos a realizar este tipo de tarefa ? muitos estão?, disse English. ?Mas, a percepção pela perspectiva de um empregador é que o funcionário mais novo irá cumprir essas tarefas sem pensar muito a respeito?. Huckabone disse que as habilidades ultrapassadas são uma preocupação válida, porém, uma que causa generalização. ?Em alguns casos, o edaísmo é justificável ? existem muitos profissionais que não se mantém atualizados?, disse ele. ?No entanto, eu não sou assim ? e é ai que minha frustração se origina. Eu me mantenho atualizado. Na verdade, eu adoro me manter atualizado; eu amo o que faço?. Hoje em dia, ele faz propaganda sobre sua idade, não a esconde. Dentre outras razões: se um possível empregador vê idade como um problema, ele prefere saber o quanto antes. ?Não vamos desperdiçar o tempo de ninguém?, disse ele. ?Se você não quer conversar com alguém de cinquenta e poucos anos, corte o mal pela raiz?. Existe um motivo mais otimista pra isso. O edaísmo não é, de forma alguma, um padrão no setor, e muitos empregadores querem experiência. Huckabone teve diversas ofertas antes de aceitar seu emprego atual. ?Com certeza, há muita gente que quer um cara mais velho, que respeita o cara mais velho?, disse Huckabone. ?Estou apenas contanto que vi os dois lados da moeda?.  
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