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Parte 1

90 dias no garimpo

Adelson Sousa Publicado em 05 de Dezembro de 2014 às 09h17

Era como uma vila. Uma cidade flutuante. Praticamente tudo acontecia sobre o rio, dentro ou à beira dele: o trabalho, o banho, a comida. O arroz cozido com a água avermelhada até parecia temperado com colorau.

 

 

A poucos meses de completar meus 18 anos, cheguei em Abunã, distrito de Porto Velho, em Rondônia. Desci do ônibus à beira do rio que dá o nome ao povoado, afluente do rio Madeira, e contemplei meu primeiro pôr do sol de dentro da floresta. Observei algumas palhoças, tipo de cabana rústica coberta de palha, que serviam de abrigo para garimpeiros e comerciantes. Em uma delas, funcionava um boteco, rudimentar como tudo o que aquele pedaço secreto de mundo tinha a oferecer. Perguntei ao dono do estabelecimento se poderia amarrar minha rede e passar a noite ali. Ele concordou.


Eu já sabia que seria assim, por isso levei minha própria rede. Também tinha consciência, quando deixei a periferia de São Paulo, onde morava, de que as coisas poderiam se tornar violentas por lá. Mas não tão rápido. Não tão próximas. Momentos após minha chegada no bar, dois homens começaram a discutir, quando um fincou uma faca no outro. O sujeito morreu. Não existia posto policial no garimpo, embora, na década de 1980, a força militar já tentasse controlar as atividades de perto. O perto, porém, ainda era muito longe.


Esse fato não diminuiu a determinação que me levara a percorrer o interior do Brasil, em viagem de 50 horas de ônibus até Porto Velho e, depois, mais um dia inteiro sentido Abunã, 220 quilômetros distante da capital, por uma estrada de terra cravada nas entranhas da Amazônia. Fizera isso por um sonho: um dia, a caminho do trabalho, no transporte público lotado, vi passar ao lado um Escort Xr3 branco. Pensei: "Um dia vou ter um desses".


Estava doido para comprar aquele carro. E Abunã surgiu como uma oportunidade de fazer muito dinheiro, mais do que jamais havia conseguido como catador de ferro velho, feirante, ajudante em um depósito de material de construção ou assistente de banco. Soube da possibilidade por uma pessoa que faria a mesma jornada. Então, comprei 100 relógios, todos à prova d'água, em uma loja da Santa Efigênia, imaginando a satisfação do garimpeiro em poder mergulhar no rio com um acessório útil, bonito.


Quando cheguei em casa, arranquei todas as pulseiras e joguei os relógios na água, dentro do tanque de lavar roupa,  para me certificar de que eles funcionariam mesmo quando imersos. Eu não queria passar por trapaceiro. Não queria correr o risco de ser morto por um descuido.


Por três meses, eu vivi no garimpo. Uma vida que acontece a bordo de centenas de balsas aglomeradas, uma encostada à outra, especialmente quando o rio está generoso. Garimpeiro chama a sorte de encontrar um local com alguma fartura de ouro de "fofoca". Em Abunã, cada plataforma de madeira tinha no mínimo cinco trabalhadores, e aí dá para imaginar a quantidade de gente concentrada em poucos quilômetros.


Sobre as balsas, existia um motor de caminhão conectado a uma mangueira e, na ponta dela, uma maraca, espécie de trava a ser fincada no barranco. Primeiro, o mergulhador, equipado só de óculos de mergulho e um bocal ligado ao compressor de ar, lançava-se no rio barrento para prender a maraca lá no fundo. O motor, então, ativava a sucção, levando para a superfície a esperança do ouro. Lá em cima, ficavam os garimpeiros, atentos aos detritos que se enroscavam na esteira.


Me lembro da barulheira infernal dos motores, dia e noite, pois funcionavam também como gerador. Me lembro ainda da palhoça que montei para mim em uma balsa, um abrigo bem simples, só para ter uma rede onde dormir. Havia ainda as plataformas com posto de gasolina, bares e bordéis. As chamadas voadeiras, pequenas lanchas, levavam as pessoas de um agrupamento para o outro.


Era como uma vila. Uma cidade flutuante.


Praticamente tudo acontecia sobre o rio, dentro ou à beira dele: o trabalho, o banho, a comida. O arroz cozido com a água avermelhada até parecia temperado com colorau. E sempre tinha gente sofrendo com malária. Geralmente, o doente passava dias ruins, com uma dor desgraçada e tremedeira.


Na rotina do garimpo e do seu entorno, vendi os 100 relógios em uma semana, todos pagos em ouro. Então, voltei a Porto Velho, pela mesma estrada castigada por buracos, chuva e lama. Lá fui trocar minha recompensa por dinheiro. O que eu não esperava era conseguir uma cotação muito melhor do que a praticada no garimpo.


Eu poderia ter partido naquele momento. Mas havia ali, na mecânica de uma vida primitiva, um negócio ainda melhor do que vender relógios.



[Essa história continua no próximo post, na semana que vem]

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