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A história continua

90 dias no garimpo - Parte 2

Adelson Sousa Publicado em 11 de Dezembro de 2014 às 10h52

"...o fato é que não consigo explicar como nada aconteceu comigo. Um dia, então, bateu a lucidez: como é que ninguém me matou até agora?"

 


(Leia a primeira parte dessa história aqui]


 

Garimpeiro é um sujeito vaidoso: ele ganha dinheiro e precisa gastá-lo. Ou melhor, mostrar que pode fazê-lo.

 

Em Abunã, o povo contava histórias incríveis de gente que conseguira acumular riqueza e partir. Uma vez, soube de um homem que teria comprado um avião e, pouco tempo depois, morrido em um acidente, ao tentar pilotá-lo. Se é verdade, não sei. Mas posso dizer que a maioria das pessoas perdeu tudo o que conseguiu, em geral sem sair do povoado.

 

Existia um desejo comum de ostentação, só que pouco os homens tinham a exibir no garimpo além de futilidades - basicamente, álcool e garotas de programa. No fim do dia, tanto à beira do rio quanto nas balsas, a confusão tomava conta: era um tal de um pagar bebida para todo o mundo aqui, outro armar uma discussão ali, defendendo sua honra até a última consequência... Brigas faziam parte do cotidiano e, não raramente, assassinatos também.

 

Uma das modalidades de matar era cortar a mangueira de ar do mergulhador enquanto ele trabalhava no fundo do rio. Quando não morria lá mesmo, tentava retornar à superfície rapidamente e, com isso, sofria problemas de descompressão. Sem falar nas mortes decorrentes de acidentes do ofício. Certa vez, presenciei um deslizamento de terra, resultado da exploração descontrolada e incessante do mesmo local. A mata intensa caiu sobre as balsas acumuladas e soterrou vários garimpeiros.

 

No garimpo, conheci o ser humano em estado bruto, sem qualquer lapidação cultural e educacional. E nesse mercado selvagem, porém intenso e lucrativo, resolvi fazer negócios a partir da compra e venda do ouro, circulando semanalmente entre Abunã e Porto Velho, em busca das melhores cotações e margens de lucro.

 

Durante três meses, mantive em mente a determinação de conquistar minha independência financeira e, ao mesmo tempo, proteger minha vida, como um bicho que instintivamente zela por sua sobrevivência. O risco já começava na negociação: eu tinha que maçaricar o ouro na hora, para provar a pureza da mercadoria, além de me colocar no lugar do outro e garantir que a minha mensagem fosse compreendida, sem enganos.

 

Se eu já era bom de comércio, lá me tornei mais do que um vendedor habilidoso. Aprendi a lidar com a iminência contínua de ser morto ou, no mínimo, rendido em um assalto, perdendo tudo o que havia conquistado. Aprendi a interpretar e me relacionar com diferentes pessoas, e como tratava muito bem a todas elas, sempre fui querido em Abunã. Ainda assim, o fato é que não consigo explicar como nada aconteceu comigo. Um dia, então, bateu a lucidez: como é que ninguém me matou até agora?

 

Era hora de voltar para São Paulo, com a meta cumprida: três meses depois, eu havia acumulado não só a quantidade suficiente para comprar meu carro, mas o primeiro grande dinheiro da minha vida. Por isso, sou profundamente grato ao garimpo.

 

Ainda hoje, guardo lembranças definitivas de Abunã: a vida pesada, ao mesmo tempo flutuante; a alegria, mesmo entre a selvageria; e a exuberância da floresta, essa uma verdade sem variáveis. As pessoas tinham um sonho. Estavam ali a batalhar por sua autossuficiência. Quem sabe, uma hora, acertar e achar muito ouro. Quando parti, não tinha caso algum para contar de gente que vingou. Mas, na falta de exemplos, eu estava decidido a ser o primeiro.

 
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