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A primeira cúpula a gente nunca esquece

Roberto Mayer Publicado em 14 de Agosto de 2013 às 09h51

No passado mês de novembro de 2012, na qualidade de vice-presidente da Assespro (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação) e presidente da ALETI (Federação Ibero-Americana das Entidades Empresariais de Tecnologia da Informação),

No passado mês de novembro de 2012, na qualidade de vice-presidente da Assespro (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação) e presidente da ALETI (Federação Ibero-Americana das Entidades Empresariais de Tecnologia da Informação), tive a oportunidade de participar da XXIV Cúpula Ibero-Americana, na cidade espanhola de Cádiz, que contou com a participação de Chefes de Estado de dezenove países da região, além de empresários. A escolha de Cádiz como sede da Cúpula serviu para comemorar os duzentos anos da primeira Constituição Republicana da Espanha: naquela época, a maior parte do território espanhol estava ocupada pelo exército francês, comandado por Napoleão Bonaparte. Cádiz, localizada no extremo Sudoeste da Espanha, entretanto, não foi alcançada pelas tropas invasoras, e serviu assim, de ponto de concentração da resistência. O Rei da Espanha tinha sido feito prisioneiro por Napoleão, enquanto o Rei da vizinha Portugal, D. João VI, tinha transferido a Capital de seu reino ao Rio de Janeiro, história esta bem conhecida de nós brasileiros. De Cádiz ate a fronteira com Portugal são menos de duzentos quilômetros. Mas, em pleno século XXI, a principal preocupação dos organizadores se chama ´terrorismo´. A pequena cidade de Cádiz se localiza na extremidade de uma península, de forma que existe um único acesso rodoviário para a cidade. Desde a véspera da Cúpula, essa rodovia estava ?tomada? pela policia: com um policial a pé a cada dez metros, e um veículo policial a cada cem metros, ao longo de vários quilômetros de estrada, na pratica a cidade de Cádiz estava ?sitiada?, numa verdadeira ?operação de guerra?. Outro sinal dessa preocupação são os crachás de identificação dos participantes, contendo diversos hologramas. Cádiz está localizada numa área de praias, com muitos terrenos arenosos. O subsolo da região não tem firmeza suficiente para a construção de uma pista de aeroporto: assim, os vôos comerciais (e os jatospresidenciais) são obrigados a pousar na vizinha cidade de Jerez de la Frontera. Esta pacata cidade do interior da Andaluzia, está localizada a menos de sessenta quilómetros de Cádiz, teve alguns dias de fama global quando seu autódromo foi palco de algumas corridas da Formula 1 (das cinco edições, duas vencidas pelo nosso querido Ayrton Senna). Jerez também serviu como sede das reuniões preparatórias da Cúpula Ibero-Americana, incluindo a Cúpula Empresarial, realizada nas instalações da filial local da CEOE - Confederación Española de Organizaciones Empresariales. Nesta Cúpula Empresarial houve vários painéis, com a participação de lideres empresariais de diversos países. A Cúpula Empresarial gerou uma declaração, sugerindo aos Chefes de Estado uma serie de medidas para o desenvolvimento da região Iberoamericana. Diante da crise em curso na Espanha e Portugal, e das características da maioria dos países latino-americanos, a maioria das medidas propostas passam pelas micro- e pequenas empresas, pela inovação como forma de reduzir a assimetria no comércio internacional, e pelo tão necessário aperfeiçoamento da infra-estrutura latino-americana. O Palácio de Congresos de Cádiz foi palco da transferência destas sugestões para os governos, papel que coube ao Ministro de Economia da Espanha, no dia 16 de novembro pela manhã. No mesmo dia 16, os Chefes de Estado e as delegações empresariais foram homenageadas comum um almoço no ´resort´ Sancti Petri ´ da espanhola rede de hotéis Meliá, localizada em Chiclana de la Frontera, uns trinta e cinco quilómetros ao Sul de Cádiz. Entretanto, a preocupação com a segurança implicou em que ambos os grupos fossem mantidos em salões separados. Chamou a atenção ainda que os veículos que conduziram os chefes de Estado não possuíam sequer a tradicional bandeira de seu país como identificação. Essa mesma preocupação fez com que a cerimônia oficial de abertura da Cúpula, realizada na noite do dia 16 no pequeno Teatro Falla de Cádiz, resultasse num verdadeiro sítio policial ao Teatro, com um cordão de isolamento formado por policiais a pé em todas as estreitas ruas da área histórica de Cádiz, a uma distancia de duzentos metros do mesmo. Estimo que este cerco contasse com cerca de dois mil policiais. A passagem por esse cerco era permitida somente para aquelas pessoas que portassem convite do Rei da Espanha para participar na cerimônia - convite este restrito apenas aos Chefes de Estado e seus ministros. Nem mesmo os diplomatas de carreira que viajaram a Cádiz para organizar a Cúpula puderam participar desta solenidade. O nome do Teatro Falla é uma homenagem a Manuel de Falla, mais famoso múscio nascido na cidade (e que junto com Albéniz, Granados e Rodrigo representam a música clássica espanhola do século XX). Autor de peças conhecidas como ?Noites nos Jardins da Espanha? e o balê ?O amor bruxo?, faleceu no exílio, em 1946, no interior da Argentina. O último dia da Cúpula reuniu os Chefes de Estado na Diputacion de Cádiz, órgão equivalente às nossas Assembléias Legislativas estaduais. O dia todo foi gasto de forma quase que exclusiva pelos discursos dos Chefes de Estado, transmitidos ao vivo pela emissora de televisão da Andaluzia. Ao termino da jornada, foi apresentada a declaração de encerramento da Cúpula, negociada pelos diplomatas presentes ao longo do dia. Para nossa grata surpresa, esta declaração oficial contemplou praticamente a totalidade das teses desenvolvidas na Cúpula Empresarial. Este fato pode ser interpretado de diversas formas: os governos da região estariam finalmente ouvindo as vozes do setor produtivo? Seus representantes preferiram, num momento de crise, priorizar as idéias do setor produtivo, que se apresentou com idéias claras e propostas precisas. Conforme o Ministro de Economia da Espanha ?não se pode esperar que um funcionário público seja o autor de idéias inovadoras para superarmos a crise?. Ainda aguardamos a mesma sinceridade vinda de governantes do outro lado do Atlántico. A próxima Cúpula Ibero-Americana está marcada para outubro de 2013 na cidade do Panamá - país que comemora neste ano os 500 anos da descoberta do Mar del Sur, nome dado pelo descobridor espanhol Vasco Nuñez de Balboa ao que hoje conhecemos como Oceano Pacífico. A moeda nacional do Panamá leva seu nome (embora os dólares americanos também tenham curso legal no Panamá). A Cúpula de 2013 deve ser a ultima a ser realizada de forma anual: ha razões econômicas e políticas para isso. A proposta feita pela Espanha é que a Cúpula passe a ser realizada de forma bi-anual, alternando-se com a Cúpula de Chefes de Estado da Europa e America Latina, que já se realiza bianualmente desde o ano 2002. Adicionalmente, esse prazo daria um alívio aos cofres públicos espanhóis, que arcam com sessenta por cento dos seus custos, sendo a parte restante dividida entre todos os demais países. Antes da Cúpula de Cádiz, o governo espanhol solicitou uma cooperação maior no orçamento aos demais países, mas este pedido não encontrou eco: uma oportunidade desperdiçada pelos países latino-americanos, o Brasil incluído, de se colocar mais claramente na liderança do processo. Nesse sentido, o setor privado está servindo de exemplo para os governos de região: sua presença e influência decisiva sobre as conclusões da Cúpula oficial se baseiam na contribuição voluntária dos empresários e as entidades que os representam. Seminário ?Brasil? Na segunda-feira seguinte à Cúpula ainda tive a oportunidade de participar do seminário ?Brasil ? en la senda del crecimiento?, a convite do Itamaraty. O evento teve a organização dos jornais El País e Valor Econômico, tendo como ?keynote speaker? a presidente Dilma. Os painéis de debates que se seguiram, abrangendo temas como educação, inovação, tecnologia e infra-estrutura, contaram com a presença dos ministros da Educação e de Ciência e Tecnologia do Brasil, além dos presidentes do CNPq e do BNDES ? e suas respectivas contrapartidas no governo espanhol. Realizado no Teatro Real da Ópera de Madrid, este seminário marcou o encerramento da viagem presidencial à Espanha em novembro de 2012.
  • Roberto Carlos Mayer (rocmayer@mbi.com.br) é diretor da MBI (www.mbi.com.br), vice-presidente de Relações Públicas da Assespro Nacional e presidente da ALETI (Federação das Entidades de TI da América Latina, Caribe, Portugal e Espanha).
   
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