Home > Colunas

Aprendizados sobre o futuro do crédito na era das fintechs

Executivo analisa futuro do setor financeiro com a chegada das fintechs, tanto no Brasil como no mundo inteiro

Leandro Zen*

09/05/2019 às 10h25

Foto: Shutterstock

Há algumas semanas embarquei em uma viagem rumo ao futuro para entender o que irá acontecer no mercado das fintechs de empréstimo nos próximos anos. Meu destino foi São Francisco, onde tive a oportunidade de participar da LendIt, maior conferência do setor que tem a missão de conectar os mais diversos players da indústria - investidores, provedores de serviços e plataformas de P2P Lending.

A jornada foi produtiva. Retornei da Califórnia com muita informação sobre as principais tendências e o que podemos esperar em novas tecnologias para o setor financeiro. Como esperado, as principais transformações estarão relacionadas com 'machine learning' e inteligência artificial (IA), que irão viabilizar a criação de novos produtos e serviços que ainda sequer podemos imaginar.

Outro destaque do evento foram tecnologias para gestão de atendimento, um dos principais desafios em atender novos clientes de serviços financeiros que buscam conveniência e agilidade em todos os canais de relacionamento, uma experiência “perfeita”.

A pesquisa Consumer Insights, da Wirecard, constatou que 26% usam regularmente pagamentos móveis e 62% citam “conveniência” como a principal motivação para fazer transações online e móveis. Quando olhamos para o outro lado, o das instituições financeiras, o tripé agilidade, eficiência e conveniência é igualmente importante na transação.

De acordo com o 'Relatório de Empréstimos Digitais' da American Bankers Association, 31% dos bancos demonstram interesse em fazer parcerias com fornecedores terceirizados para realizar empréstimos ao consumidor, 80% querem alavancar tecnologia em sua atividade de empréstimos a pequenas empresas e 72% desejam se tornar mais eficientes em seus serviços de empréstimo.

Hoje, o Brasil está na quarta posição em transações eletrônicas, com um volume de mais de 29 bilhões de operações, ficando atrás da Rússia, Índia e China, segundo dados do estudo World Payments Report 2018. Em 2017, de acordo com levantamento da Abecs, os brasileiros viram pela primeira vez o volume de transações via cartão (crédito, débito ou pré-pago) superar o de dinheiro em espécie, movimentando R$ 1,36 trilhão em meios de pagamento eletrônicos contra R$ 1,31 trilhão em saques em papel moeda.

O Brasil tem uma grande relevância na associação de finanças e tecnologia. Não é à toa que somos o país com maior com número de fintechs no mercado latino. Os dados do relatório ‘Fintech na América Latina 2018’, publicado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mostraram crescimento de 66% de novos negócios no ano passado em comparação ao primeiro levantamento, realizado em 2017.

Revolução das fintechs ou evolução das fintechs?

Mas não é somente as pessoas físicas que estão se beneficiando dos empréstimos online. As empresas, principalmente as micros e pequenas que têm dificuldade em conseguir empréstimo nos tradicionais bancos, conseguem vencer o chamado vale da morte ao ter acesso a crédito online com juros mais baixos que os oferecidos pelas instituições ditas tradicionais.

De acordo com um estudo do US Bank, 82% das pequenas empresas fecham por causa de problemas de fluxo de caixa e mais de um terço afirma que este é o grande desafio para sobreviver. Em outra pesquisa, 80% dos comerciantes disseram que os pagamentos em tempo real aumentariam seu fluxo de caixa disponível, sendo que o empréstimo online instantâneo é um excelente veículo para fornecer financiamento de curto prazo para resolver a escassez de recursos.

Assistindo as palestras da LendIt ficou clara a importância dos bancos tradicionais e sua relação com as fintechs (e vice-versa). Muitos falam das disrupções de negócios em alguns setores, como Netflix, Uber, Airbnb e assim por diante. No setor financeiro não foi diferente nos últimos anos, pois muitos "especialistas" discutem se os bancos deveriam se preocupar em se tornar obsoletos e questionam: será que com essa revolução digital a tecnologia vai matar a agência bancária?

O evento mostrou que ao invés das fintechs ficarem apenas querendo competir com as instituições financeiras bem capitalizadas, com milhões de clientes e alcance nacional, elas precisam juntar forças com "seus adversários", mas, claro, sem perder sua essência.

Nos Estados Unidos pude ver de perto uma consolidação desse mercado com instituições financeiras comprando umas às outras, principalmente por conta das mudanças nas regulamentações federais que impedem alguns acordos, como nos casos da Foundation adquirindo a Provident, a OnDeck incorporando a PNC, e o BBVA agregando a Simple, ou simplesmente compram plataformas, exemplo do KeyBank, que adquiriu Laurel Road, e da SunTrust, que incorporou a FirstAgain. Por último, mas não menos importante, as fintechs estão comprando fintechs: a Plaid absorveu a concorrente Quovo.

E este movimento de consolidação não está ocorrendo apenas no mercado americano. A Ásia, por exemplo, desenvolveu um mercado bilionário de fintechs com os “big players”, ou seja, instituições com muitos clientes que receberam investimento em tecnologia para disponibilizar ao usuário a melhor experiência financeira. Tal crescimento, por sua vez, também aconteceu na América e na Europa, que apostaram no ineditismo e eficácia.

Para finalizar, quero deixar um número apresentado no evento que mostra para onde o mercado de empréstimo online está caminhando. Em 2013, 40% dos empréstimos pessoais foram originados por bancos tradicionais, sendo apenas 5% pelas fintechs. Em 2018, 28% dos empréstimos foram realizados por bancos tradicionais e, acreditem, 38% por fintechs.

O mundo mudou. É necessário estar preparado para o que ainda está por vir. É preciso mudar o pensamento para conseguir atender as necessidades dos clientes, uma vez que, a cada dia, eles têm se mostrado mais exigentes.

E você, está se preparando para tudo isso? Não demore para responder, pois você corre o risco de ficar para trás.

 * Leandro Zen é fundador e CEO da TuTu Digital

Junte-se a nós e receba nossas melhores histórias de tecnologia. Newsletter Newsletter por e-mail