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Blockchain só terá valor para projetos e empresas dispostas à colaboração

Durante IT Forum 2019, executivos de TI do Itaú e da TecBan discutem por que a tecnologia que sustenta o bitcoin não é para todo mundo

Carla Matsu

21/04/2019 às 9h50

Foto: Photo Gama

O blockchain tem despontado nos últimos anos como uma tecnologia emergente promissora para uma série de indústrias. Mas para além do hype da tecnologia que sustenta o bitcoin, o que muitas empresas e pesquisadores têm se debruçado é sobre onde ela pode entregar, de fato, mais valor. Afinal, o blockchain se encaixa em tudo?

Para Igor Freitas, superintendente de TI do Itaú, e Robert Baumgartner, CIO do TecBan, não é esse bem o caso. Os executivos implementaram projetos de blockchain em suas companhias e destacaram aprendizados e desafios de suas jornadas durante o IT Forum 2019, realizado de 17 a 21 de abril, na Praia do Forte, na Bahia.

Freitas salienta que antes de implementar uma solução em blockchain é preciso que as equipes responsáveis façam uma pergunta simples, porém essencial: há de fato uma necessidade de negócio para aplicar blockchain? “Você está a fim de colocar seus dados na rede [de blockchain]? Se você não tiver o mindset de colaboração, blockchain não é para você”, resume Freitas. Algo que Baumgartner endossa: "você precisa escolher bem o caso de uso. Não é uma tecnologia trivial, barata”, complementa.

Os executivos reforçam as características que fazem do blockchain uma tecnologia única e confiável, porém cujas idiossincrasias devem, sobretudo, questionar sua vocação. Trata-se de uma rede distribuída e imutável - onde a informação não pode ser alterada na rede -, é necessário consenso de todas as partes e, por fim, o blockchain dá base a contratos inteligentes. Esse arcabouço tecnológico minucioso, na visão de Freitas, muda totalmente as regras do negócio. “A forma como você se relaciona com as partes muda. Não tem sentido falar blockchain dentro de casa. Ele tem que ter partes, relações de confiança. É uma disrupção do seu modelo de negócio”, reflete Freitas.

Escolha bem o seu caso de uso

O blockchain confia à cada nó da cadeia uma chave de criptografia. Sua natureza faz dele uma tecnologia exemplar para rastrear informações e assegurá-las. Pelo serviço distribuído que oferece, com Bancos 24 horas espalhados em diferentes pontos de acesso no Brasil, a TecBan encontrou na tecnologia uma forma de otimizar a saída de cédulas de dinheiro. “Quando nasceu em 2009, o blockchain surgiu com a provocação de acabar com o dinheiro. E quando eu entrei na TecBan, brincavam perguntando se eu já estava procurando outro emprego. Mas a ironia hoje é que a gente usa blockchain para otimizar a circulação de dinheiro”, brinca Baumgartner.

Os caixas 24 horas da TecBan, disponíveis em supermercados, lojas, postos de gasolina e instituições financeiras, precisam ser abastecidos com um fluxo constante de notas. Esse trabalho de logística de alimentá-los envolve bancos do varejo, o Banco do Brasil e o Banco Central, uma arquitetura que precisa ser bem pensada e antecipada para não sobrecarregar as taxas de seguro de cada transporte de moeda.

E é exatamente com o blockchain que a companhia tem encontrado uma forma de otimizar essa “compra" com bancos mais próximos dos caixas, distribuindo o rastro das transações entre eles. Agora é possível fazer um processo interbancário, onde os diferentes pedidos de notas são compartilhados pela rede de bancos da base da TecBan.

O projeto de implementação de blockchain foi feito em um mês e meio, segundo Baumgartner. “Fizemos um trabalho de garagem, foi uma implementação rápida”, pontua o CIO. Já os resultados geram uma economia escalonável. “Conseguimos otimizar muito a circulação de dinheiro, ele gira na mesma localidade. E o tamanho da economia que isso traz é gigantesco”, destaca.

Já o Itaú tem aplicado usos de blockchain a um série de projetos em uma jornada que já dura dois anos e meio. “Quando começamos a trabalhar com blockchain no Itaú, o grande objetivo era entender como conseguir aplicar isso, como criar e ter uma arquitetura de referência”, lembra Freitas.

Foram aplicados, então, conceitos básicos de blockchain. Segundo o executivo, o interesse do Itaú com a tecnologia não reflete a busca pela popularidade das criptomoedas. “Estudamos, mas não como moeda e sim para caso de uso real”, salienta. Freitas concorda com Baumgartner no sentido de que a implementação do blockchain, seja ele público ou permissionado, é relativamente rápida. "Levamos três semanas para implementar. Mas gastamos um tempo para trabalhar a governança da rede”, ressalta.

Entre os projetos que utilizam blockchain está o chamado Boleto de Proposta, que são boletos de assinatura como os de revista que uma vez quando pagos acaba gerando um contrato implícito de compra e venda. O Club Loan, de empréstimo sindicalizado, também adotou uma prova de conceito de blockchain. Segundo o executivo, a tecnologia de blocos foi usada para todo o processo de compra e de empréstimo feito pelas partes envolvidas.

“A tecnologia é a parte mais simples do negócio. E as tecnologias estão bem maduras, mas o grande desafio é mudar a mentalidade do negócio. A relação de confiança muda, a confiança passa agora puramente pela tecnologia. Pense mais na mudança que você quer fazer para o negócio”, aconselha Freitas. "Estamos falando de dinheiro aqui, mas o blockchain serve para qualquer informação que faça sentido”, complementa o executivo.

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