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Big Brother

Sergio Basilio

09/01/2019 às 12h02

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Um executivo brasileiro de um fabricante importante de TI foi convocado para participar de uma reunião LATAM da sua empresa no México, com centenas de pessoas. Passou a noite dentro do avião e, ao chegar ao destino, foi direto para o evento. O cansaço, somado à sensação de tempo desperdiçado, o fez dar algumas cochiladas. No encerramento o CEO da empresa subiu ao palco para anunciar que, para o próximo ano, seriam feitas algumas mudanças nessa reunião recém-encerrada.

Os temas, o formato e a dinâmica seriam alterados, visto o baixo interesse despertado nos participantes. A dúvida de todos foi de como o CEO havia chegado àquela conclusão. Ele se antecipou e afirmou que aquele auditório era equipado com câmeras de vídeo rodando sob um software de reconhecimento corporal com inteligência artificial, que detectava o sentimento de cada participante durante o evento através das feições do seu rosto e da sua atitude corporal. Os resultados, segundo o software, foram que 11,1% dos participantes estiveram atentos mais de 80% do tempo, 22,5% estiveram atentos mais de 50% e menos de 80% do tempo do evento e os 66,4% restantes estiveram desatentos a maior parte do tempo. Destes últimos, 13 até dormiram! Os nomes são conhecidos, mas não seriam revelados. Ufa! ... Pensou o nosso amigo executivo com os seus botões!

Esse é somente um exemplo das aplicações que podem ser desenvolvidas com a combinação de processamento digital de sinais de imagem e inteligência artificial. Câmeras digitais de alta resolução, algoritmos matemáticos complexos e muita capacidade de processamento formam um conjunto que levou o processamento digital de imagens a um nível nunca imaginado pelos primeiros cientistas que a isso se dedicaram, 40 anos atrás. Colocando esses ingredientes sob uma camada de softwares cognitivos, que aprendem com o tempo, chega-se a um dos pilares mais importantes da inteligência artificial: a “visão”.

Hoje estão ao alcance das revendas uma série de recursos a serem utilizados para maior eficiência de projetos voltados aos mais diversos segmentos verticais. Para a vertical de varejo, por exemplo, é indiscutível a utilidade de um software capaz de analisar, por reconhecimento facial, a satisfação de um cliente, comparando suas feições ao entrar e ao sair de uma loja. Essa análise, junto com o mapa de calor do cliente – que mostra as partes da loja que ele visitou – e com o sistema de controle de venda, dá informações valiosas para o lojista. Pode-se saber que produtos deixam os clientes mais felizes, mediamente felizes ou descontentes. Isso é ouro para o lojista!

Câmeras digitais que estão instaladas no topo do One World Trade Center, em Nova York, conseguem identificar uma moeda no chão da rua, a mais de 500 m de distância.

Alguns softwares de reconhecimento facial precisam de somente 64 pixels para identificar, com 80% de precisão, um rosto.  Isso significa que, em poucas horas, todo o público de 60.000 pessoas que lota o Maracanã pode ser identificado por um punhado de câmeras. Ou todos os passageiros de um aeroporto. Ou todos os transeuntes da rua. Segurança total, mas privacidade nenhuma. Assustador, não?

George Orwell já previa um mundo absolutamente controlado no seu romance 1984, publicado em 1949. Ele errou em muita coisa, como a maioria dos romances de ficção futurista, mas acertou sobre a capacidade de “tudo ver”.

O grande desafio da nossa sociedade hoje é de criar leis que regulem o uso dessas informações digitais para proteger as pessoas, sem comprometer sua privacidade. Afinal, quem não quer dar uma espiadinha?

Sergio Basilio é Diretor Comercial da Westcon Brasil

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