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Não existem balas de prata, só complexidades

Marcio Vasconcelos

08/01/2019 às 19h29

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Se a complexidade não é a chave do mundo, mas o desafio a enfrentar, por sua vez o pensamento complexo não é o que evita ou suprime o desafio, mas o que ajuda a revelá-lo, e às vezes mesmo a superá-lo.  Edgar Morin

Quando iniciei essa coluna, prometi um bônus de pensamento sistêmico em alguns artigos. Pensamento sistêmico e pensamento complexo serão tratados como sinônimos aqui.

Nesse início de ano e de governo, senti a necessidade de propor que a sociedade foque sua energia em identificar e debater problemas objetivos, ao invés de brigar a respeito de visões de mundo ou acreditar sem uma visão crítica em “balas de prata” ou “salvadores da pátria”.

O momento é ideal para propor uma reflexão sobre complexidade.

A premissa central da complexidade é a impossibilidade, mesmo em teoria, de termos todo o conhecimento necessário para resolvermos problemas complexos de forma definitiva. Isso porque ela compreende não apenas grandes quantidades de unidades e interações no âmbito de um sistema, mas também de incertezas e fenômenos aleatórios.

Num certo sentido, complexidade tem estreita relação com a emergência de fenômenos que não temos como antecipar.

Democracia, segurança pública, desenvolvimento econômico, inovação tecnológica, desigualdade social, mudanças climáticas, costumes sociais, educação em alta escala e muitos outros são temas complexos. O planejamento deles requer pensamento sistêmico, pois operam por meio de um conjunto de sistemas e subsistemas. Não partir dessa compreensão é um erro que prejudica sair desse  "labirinto dinâmico" que é a complexidade. 

Qualquer exemplo será muito limitado em um texto dessa extensão, mas pensemos na proposta de  liberar porte de armas para combater a violência. A partir da entrada de mais armas no sistema,  a sociedade brasileira pode ter como efeito colateral o roubo de armas para uso de bandidos, mortes acidentais por falta de habilidade ou engano, mortes banais por excesso de medo ou acesso facilitado a armas, aumento de latrocínios por medo da vítima portar arma, entre outros. O resultado final no sistema pode ser mais perdas de vidas humanas (inocentes e criminosos), sem falar nos problemas de saúde com feridos a bala, sobrecarregando o já precário sistema público de saúde.

Talvez uma melhor intervenção sistêmica, no curto e médio prazo, seja reduzir a circulação de armas ilícitas, ao controlar melhor as fronteiras, destruir armas apreendidas, asfixiar financeiramente as organizações criminosas que traficam armas e prender seus líderes. Mas potencialmente a melhor solução de longo prazo é compreender e reduzir as razões sistêmicas que fomentam a proliferação de criminosos, entre as quais a extrema desigualdade social é um ponto central, algo tão complexo que nunca é incluído num plano de segurança pública. Países menos desiguais são mais seguros. Fato!

Como lidar com a complexidade na prática? De forma ultra resumida, sugiro os seguintes passos não lineares, mas iterativos, com idas e voltas aos mesmos passos, como acontece em uma espiral.

  1. Definir e estudar a fundo qual problema complexo queremos resolver;
  2. Definir e modelar (visualmente) o  sistema complexo no qual o problema se encontra;
  3. Identificar as partes do sistema que não funcionam adequadamente;
  4. Fazer cenários e estratégias para intervir em partes-chave do sistema;
  5. Mapear os atores e as iniciativas com mais poder para promover mudanças no sistema;
  6. Articular atores no entorno das mudanças propostas, mantendo uma visão de ecossistema (sistema e subsistemas).    

O White Paper “Recomendações sistêmicas para combater a desinformação nas eleições do Brasilpercorreu quase todos os passos acima. Abaixo, um mapa para ilustrar o passo 2.

Mapa do Sistema Propaganda Eleitoral na Internet

A convivência entre ordem e desordem, acerto e erro, certeza e incerteza, segurança e risco, dados confiáveis e “pontos cegos” não apenas é inevitável, como são processos complementares inerentes às estratégias de mudanças sistêmicas.

Planos com base somente em “balas de prata”, certezas, rigidez e bravatas só servem para prejudicar a compreensão do mundo complexo, inibir as potencialidades re-organizadoras do sistema e, muitas vezes, provocar consequências negativas não intencionais.

A aceitação da complexidade e suas propriedades, nuances, consequências e efeitos colaterais ou indesejados é uma mudança de paradigma urgente.

Lidar com ela é possível. Dominá-la, não!

E não podemos esquecer… “a complexidade é o desafio e não a resposta”

Se quiser falar comigo, escreva para marciovp@gmail.com

 

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