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Falta de regulamentação atrasa adoção do IPv6

Rodrigo Garcia

17/11/2014 às 11h34

Falta de regulamentação atrasa adoção do IPv6
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Com o fim dos estoques de endereços IPv4, diversos países já começaram a mobilizar-se para atualizar suas infraestruturas de rede e suportar endereços IPv6. Porém, embora a necessidade seja iminente, a adoção do novo modelo ainda é lenta na maior parte do mundo, especialmente no Brasil. Em solo nacional, especialistas do setor indicam que a falta de regulamentação específica incentivando a mudança para o protocolo é considerado um desafio para a migração. 

Para se ter uma ideia, o Brasil foi um dos dois únicos países cuja adoção no número de endereços IPv4, protocolo de comunicação utilizado entre duas ou mais máquinas em rede para encaminhamento dos dados, aumentou no segundo trimestre de 2014, com elevação de 6,7% em relação ao trimestre anterior, segundo indica o estudo Akamai State of Internet, divulgado em outubro. O Japão também registrou pequena alta de 1,9% durante o segundo semestre de 2014, em relação aos três primeiros meses do ano.

O Brasil mostrou expansão na adoção de IPv4 entre os dez maiores mercados globais no comparativo anual, com 43% de elevação. Mesmo com o esgotamento do protocolo, a média global teve elevação na adoção de 4,8% na comparação com o mesmo período de 2013.

Por que adotar o IPv6?

Segundo o analista de tecnologia sênior da PromonLogicalis, Érico Barcelos, o IPv4 foi projetado em uma época em que os cientistas ainda não tinham noção do real tamanho que a internet atingiria. Com isso, ele tem capacidade para 4 bilhões de endereços, valor que já não atende mais às necessidades atuais. Por isso, durante anos foi desenvolvido um novo tipo de protocolo de endereço que resolvesse a limitação do IPv4. No novo modelo, o formato é constituído por 128 bits, número quatro vezes maior ao utilizado pela versão anterior, o que promove escalabilidade ao IPv6. Segundo Barcelos, esse é o principal benefício do IPv6, visto que ele possui capacidade de endereçamento infinitamente maior.

“Com a chegada da Internet das Coisas (IoC), uma tendência que veio para ficar, teremos aumento no número de dispositivos conectados. Segundo dados da Cisco, até o final de 2020 serão 50 bilhões de dispositivos conectados, o que irá demandar grande número de IPs. Com o IPv4, seria impossível tornar a IoC realidade”, explica Barcelos.

Já a especialista em sistemas do Inatel Competence Center, Mariana Duarte, destaca que a mudança será necessária devido ao fim dos protocolos IPv4, mas que o principal benefício estará nas melhorias relacionadas a parte de comunicação fim a fim. “A mudança significará o fim da estrutura NAT, que apesar de ter sido positiva devido à reutilização do IP privado e pela segurança na rede, prejudicava a comunicação fim a fim, que será essencial no novo contexto de dispositivos conectados.”

Dificuldades de adoção do IPv6

No Brasil, já existe a recomendação para que as empresas passem a modernizar suas redes e fornecer suporte a conexões realizadas via IPv6. Entre as operadoras, a migração já foi concluída, mas os novos protocolos de endereço ainda não começaram a ser distribuídos devido ao estoque do modelo anterior ainda existente. Porém, ainda segundo dados do estudo do Akamai, operadoras das regiões próximas ao Brasil, como América Latina e Caribe, já estão com os estoques “praticamente esgotados”.

Segundo o gerente de produtos de switched data e internet da Level 3, Victor Maeda, um dos desafios encontrados durante esse processo de modernização é a demora para colocar endereços IPv6 em funcionamento em todas as esferas. O executivo destaca que, por não existir uma data específica que regulamente essa mudança, a adoção é mais lenta, pois as empresas fazem as modernizações de acordo com suas necessidades.

“Esse movimento começou há alguns anos. Grandes portais, como Google, Facebook e Yahoo já possuem versões IPv6, assim como Juniper e Cisco já fornecem produtos com suporte a esse tipo de conexão. A mudança acontece, mas o IPv4 vai ser utilizado junto ao IPv6 por um certo tempo. Ainda levará muitos anos para que a modernização total aconteça”, avalia Maeda.

O diretor de canais e programas da Akamai na América Latina, Jonas Silva, também acredita que o maior problema atualmente para a adoção completa do IPv6 é a falta de equipamentos com suporte a esse tipo de protocolo. “Mesmo que alguns modelos já existam, a grande maioria dos equipamentos ainda não oferece suporte para esse tipo de protocolo, o que atrasa a adoção pela maior parte das pessoas.”

Já Barcelos destaca a questão técnica que envolve a mudança no tipo de protocolo utilizado. Para o analista, o primeiro passo a ser dado pelas empresas é verificar entre os aparelhos que estão na rede quais deles possuem suporte para protocolos IPv6. Com essas informações em mãos, é possível começar a planejar a modernização da rede.

“O IPv6 não será implementado logo de cara em todos os equipamentos. É adequado começar na conexão à internet nos webservers, para que o site da companhia seja acessado sobre os dois aspectos. É necessário traçar um plano de migração e ir implementando as novas funcionalidades aos poucos. Os dois tipos (IPv4 e IPv6) andarão juntos por um longo período”, destaca.

Velocidade de adoção no Brasil e no mundo

Segundo o estudo da Akamai, o Brasil sequer aparece entre os dez países que mais contam com tráfego IPv6. A lista é liderada pela Bélgica, com 19%, seguida pela Suíça (10%), Luxemburgo (8,8%), Romênia (7,1%) e Estados Unidos (6,8%). De acordo com dados de tráfego contabilizados pelo Google, apenas 0,1% dos acessos realizados no Brasil utilizam esse tipo de endereço.

Para Mariana, o Brasil está atrasado no que se refere à adoção desse protocolo, visto que o bloco de IPv4 se esgotou entre 2012 e 2013, mas só agora as operadoras iniciaram a comercialização do modelo devido ao estoque que existia do modelo anterior. “Países da Ásia e do Pacífico têm de dois a três anos de vantagem sobre o Brasil. Como o esgotamento lá aconteceu há algum tempo, eles já estão mais avançados nesse sentido. O Brasil está passando por uma fase de migração, mas que demorará longos anos. Só teremos estatísticas significativas daqui dez anos”, acredita.

Já Maeda destaca que existem outros países cuja adoção do novo protocolo é ainda menor que no Brasil. O executivo salienta que o País é um grande usuário de internet e que já foi possível constatar aumento na adoção durante este ano. Apesar disso, Maeda enfatiza que será necessário investimento amplo por parte das empresas.

“No Brasil, não foram criados consórcios para que se debatesse e incentivasse o tema, criasse um processo de conscientização para que isso fosse realizado mais rapidamente. Acredito que existe toda uma cadeia que deveria estar na mesma sintonia, mas, mesmo com esses contratempos, estamos tirando um pouco o atraso”, conclui.

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