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Para Marina Silva

Para Marina Silva, homem é trinitário e se baseia no passado, presente e futuro para pautar decisões

Segundo a fundadora da Rede, resgates são necessários, mas sempre há um recomeço, como o qual bate à porta do Brasil

É possível ter um olhar prospectivo que não esteja plasmado pelo acervo de nossas experiências? Foi com essa pergunta que Marina Silva, fundadora da Rede Sustentabilidade e ex-candidata à Presidência da República, abriu sua apresentação no primeiro dia do IT Forum 2016, que se estende até 24 de abril, na Praia do Forte, na Bahia. 

O questionamento, em linha com a temática do encontro Inércia Ativa: olhando para o futuro sem recorrer às respostas do passado, faz sentido. Segundo Marina, o homem é um ser trinitário, ou seja, se baseia no passado, presente e futuro para pautar suas decisões a ações e por isso todos os resgates são necessários. Contudo, há sempre um recomeço.

Para falar sobre recomeços, Marina citou a filósofa política alemã de origem judaica, Hannah Arendt. “Ela dizia que o homem ainda que morra não nasceu para morrer e, sim, para recomeçar. Acho isso maravilhoso, porque o que temos de permanente é o acidente da morte e de passageiro o acidente da vida, mas a vida é sucessiva e ela só é possível porque é sucessiva”, refletiu.

A também professora e ambientalista disse que sucessividade é guiada por ética e política, item que talvez até agora não tivesse de ser revisado. Entretanto, diante da crise política e econômica atual do País essa reflexão se faz necessária. “É possível termos uma atitude prospectiva que não dialogue com o que não aconteceu no passado? Na política, certamente uma atitude prospectiva é usar o futuro como pretexto para fazer coisas no presente.”

Segundo ela, nesse contexto, presente e futuro dialogam por necessidades de mudanças políticas. “Tenho insistido há tempos de que boa parte do problema que vivemos hoje é falta de sustentabilidade social, política, econômica, ambiental, cultural, ética e estética”, comentou, completando que a crise existe porque a política está perdendo sua potência transformadora e atingiu estágio de esgotamento. 

Há ainda, de acordo com Marina, o surgimento de um novo tipo de ativismo, diferente do dirigido que não parte de líderes carismáticos, ONGs ou organizações. Ela afirma que o novo sujeito político não quer ser espectador, quer ser autor, protagonista, o que ela chama de ativismo autoral. 

Esse novo sujeito político, afirmou, pode ser a resposta para mudar o jogo da crise civilizatória. “Enfrentar uma crise civilizatória não é fácil porque não temos acervo de experiência. Porém, o novo ser político tem de ter capacidade de dialogar com o que já aconteceu e assim vai se dar o diálogo entre tradição e modernidade, com o que aconteceu e o que vai acontecer”, assinalou Marina retomando, mais uma vez, a questão de olhar para o passado. 

Marina indicou que assim como na tecnologia, que tem de constantemente inovar e se reinventar, assim é com as relações entre as pessoas. Mas trabalhar com ideia de inovação política exige, certamente, um novo tipo de liderança, garantiu, que está longe daquele líder que veio para salvar, que recebe os louros por tudo e mais um pouco. “O mundo em rede tem líderes capazes de dividir. Aqueles que às vezes são arco e outras são flecha.”

Adepta do empoderamento da nação, Marina, que afirmou ainda não saber se concorrerá à presidência nas próximas eleições, a nova liderança terá de trabalhar com a fraqueza de que é impossível governar sem que se faça uma gestão compartilhada com a nação. “Além disso, a liderança do amanhã terá de lidar com o ‘indizível’, ou seja, aquilo que não tem palavra ou significado e ter visão antecipatória. Gandhi teve, bem como Luther King”, lembrou. 

Naturalmente, as palavras e os ensinamentos de Marina podem ser levados para o universo corporativo, que necessita de líderes que compartilhem e que consigam inovar e se antecipar. 

Questionada sobre qual era sua visão antecipatória sobre o Brasil, Marina respondeu que ela sonha com um Brasil socialmente justo, que possa politicamente democrático. Ela lembrou que muitas coisas boas foram feitas pelo País e isso não pode ser esquecido. A saída agora é corrigir erros e apostar na sustentabilidade em todas as suas vertentes por uma real transformação. 

“O Brasil tem uma grande base de recursos naturais, tecnológica, indústria, setor agrícola, tem todas as condições de ser economia de baixo carbono. Para isso, é necessário investimentos estratégicos de longo prazo e resolver a crise do curto prazo. Pessoas sonham que vamos mudar quando mudarem as estruturas, mas sem mudança de postura não há de estruturas”, disse fazendo alusão sobre a possível alteração na presidência brasileira. “O problema do Brasil não é a elite, é a falta da elite. Elite é quem tem pensamento estratégico, quem pensa estrategicamente concede, é capaz de antecipar”, disparou antes de encerrar.

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