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O que mudará o Open Banking no Brasil?

Confira os novos horizontes que essa tecnologia abre para o cenário financeiro no País

Marco Bravo*

07/06/2019 às 13h23

Foto: Shutterstock

À medida que o Banco Central do Brasil se prepara para implementar um novo modelo de Open Banking no país em 2019, a necessidade de repensar o modelo atual de transações financeiras segue urgente.

De acordo com pesquisas da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) em 2018, as transações financeiras bancárias móveis cresceram 70% no Brasil. Com o Open Banking funcionando a pleno vapor, esse percentual deve aumentar substancialmente. Em poucas palavras, o ‘open banking’ possibilita que usuários de terceiros acessem e utilizem os recursos de uma conta bancária por meio da integração das plataformas de TI de vários prestadores de serviços financeiros, desde que o titular da conta o permita.

O ponto principal do movimento ‘open banking’ é fornecer aos usuários maior autoridade sobre suas próprias contas e oferecer uma forma mais simples de lidar com seu dinheiro, sem necessidade de baixar vários aplicativos de diferentes bancos ou se preocupar com diversos tipos de transações, sistemas, variantes tributárias e outros detalhes que tornam o mundo financeiro complexo para o consumidor.

As fintechs são importantes para esse novo cenário porque estão trabalhando para diminuir o número de intermediários no processo financeiro e tornar as movimentações financeiras o mais simples e diretas possíveis. Para fazer pagamentos, por exemplo, seria possível, por meio do ‘open banking’, enviar dinheiro diretamente para a empresa que você está contratando para um serviço, sem necessidade de recorrer a modelos de transferência de moeda que podem divergir de um banco para outro (e que cobram o usuário por isso).

A necessidade de colaboração com as fintechs

Atualmente, temos, de um lado, instituições financeiras trabalhando de forma tradicional e, do outro, as fintechs, que estão revolucionando a forma como trabalhamos com moeda, mas têm limitações quanto a aplicar todas as suas ideias devido aos sistemas monetários implementados atualmente. Bem no meio dessas duas opções fica o consumidor, à procura de melhores serviços, de soluções seguras e mais rápidas e de maneiras mais simples de usar seu dinheiro.

A regulamentação do ‘open banking’ no Brasil ajudará a resolver essa equação. No entanto, para que o ‘open banking’ seja bem-sucedido é necessário que os bancos e as fintechs colaborem entre si para proporcionar melhores serviços para seus clientes.

Os consumidores têm muito a ganhar com a abertura do mercado de pagamentos para permitir maior concorrência, incentivando a inovação entre as fintechs, e a resultante disrupção do mercado. À medida que se tornar realidade, a regulamentação do ‘open banking’ no Brasil irá impulsionar a necessidade dessas parcerias. Na verdade, muitas dessas parcerias já estão atuando por meio dos programas implementados nos principais bancos do país orientados a fintechs.

Hoje, cada banco está conectado a um grande ecossistema de fintechs que oferecem serviços complementares ao cliente, sejam em fase exploratória ou já a pleno vapor. O ‘open banking’ permitirá que as fintechs sejam mais independentes e consigam se conectar mais facilmente a múltiplos bancos, fornecendo serviços interbancários com maior inovação no mercado. Essa regulamentação honra a tradição do Brasil de possuir um dos sistemas bancários mais avançados e inovadores do mundo há várias décadas, apesar de focado primordialmente no mercado interno.

Lições de 'open banking' aprendidas ao redor do mundo

Tratando de questões regulatórias, desafios ainda precisam ser superados, mas as lições aprendidas durante esse processo em outros países serão úteis. A criação da PSD2, uma diretiva europeia elaborada para quebrar o monopólio dos bancos sobre os dados de seus usuários, demonstrou que o uso da padronização, rastreabilidade e soluções que aprimoram a experiência do usuário, como o uso de biometria para consentimento e autenticação, deve ser incluído na regulamentação, sob pena de não se solucionar o problema por completo.

Na América Latina, esse movimento está começando a crescer. O México, por exemplo, regulamentou que prestadores de serviços bancários de todos os tipos devem fornecer acesso equitativo aos dados como condição para garantir ou manter sua licença bancária. Com isso, o México está tentando incentivar a concorrência a criar propostas para os clientes, o que deverá conquistar novos usuários para o espaço digital – uma necessidade para o país.

A inclusão financeira, fundamental para a lei de fintech mexicana, é também um fator importante para o Brasil. O sistema ‘open banking’ constitui apenas uma pequena parcela da discussão mais ampla sobre dados abertos. “Aberto” significa fornecer apoio às pessoas em relação ao entendimento de seus próprios dados, de modo a tomarem decisões bem fundamentadas.

As pessoas sub-bancarizadas e não bancarizadas, assim como aquelas que não contam com infraestrutura tecnológica, não devem ser esquecidas. Em boa parte da América Latina, “correspondentes não financeiros” operam como um canal para fornecer alguns serviços financeiros básicos para comunidades com baixo grau de adoção digital. Essas empresas podem vir a se tornar um tipo novo e desafiador de banco comunitário que facilita o acesso e a compreensão de seus dados pelo cliente. A educação será fundamental para o sucesso do open banking e dos dados abertos.

E o que ocorre a partir daí?

Embora os bancos tenham feito avanços no setor bancário digital, há ainda um longo caminho a percorrer e, em um ambiente no qual agilidade e tecnologia são essenciais, modernizar os sistemas é uma prioridade. A melhor maneira de fazer isso é trabalhar em conjunto com as fintechs para desenvolver novos serviços e soluções que atendam às necessidades emergentes e resolvam os pontos críticos dos consumidores.

Há uma necessidade de se repensar completamente bancos e pagamentos, desde serviços e produtos à forma como enviamos e recebemos dinheiro, de modo a abrir novas oportunidades e liberar todo o potencial da tecnologia financeira para que os consumidores possam desfrutar de novas e melhores possibilidades de gerenciar seu dinheiro.

Deve-se ressaltar também que a inexistência de qualquer caso negativo nos mercados que já adotaram o ‘open banking’, associado ao tamanho da oportunidade do país, contribui para o desenvolvimento de mais inovação no Brasil. Tal fato é corroborado pelo crescimento explosivo do financiamento disponível para novas fintechs em 2019, que aumentou sete vezes desde 2016 e atingiu mais de US$ 1,5 bilhãho em 2018.

Interessante notar que o impacto do ‘open banking’ no Brasil também será impulsionado pelas discussões em curso sendo conduzidas pelo Banco Central em torno de padrões para os pagamentos Instantâneos disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana no Brasil, e por decisões em torno de padrões globais como o ISO 20022. Isso pavimentará um caminho amplo para transações de pagamento internacionais no país, o que se alinha às novas diretrizes do governo brasileiro no sentido de acelerar a integração global da economia. As fintechs e os bancos no Brasil chegaram a um estágio em que estão prontos para dar o próximo passo em direção ao futuro.

Marco Bravo é vice-presidente da ACI Worldwide para a América Latina

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