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Sobre games e conexões

A mudança no universo dos games era muito maior do que haviamos imaginado

*Diego Julidori

27/07/2019 às 14h10

Games no Brasil
Foto: Shutterstock

"Estamos competindo (e perdendo) mais com o Fortnite do que com a HBO". Quando a Netflix fez a declaração acima ao mercado, durante sua apresentação de resultados do quarto trimestre do último ano, comecei a entender que a mudança no universo dos games era muito maior do que havia imaginado.

Me lembro como se fosse ontem, quando era preciso assoprar os cartuchos de Atari para conseguir jogar. Era uma época em que as conexões eram físicas e visíveis. O cartucho tinha que ser encaixado em um slot para ser lido, iniciando, assim, o jogo. Havia também um pequeno "switcher" que permitia alterar a imagem da TV entre o que a antena captava e o conteúdo vindo do vídeo game. Botões? Apenas um era suficiente...definitivamente, eram outros tempos.

Oficialmente, meu primeiro console foi um Master System, produzido pela Sega nos anos 80. A versão que eu tinha vinha com o jogo Alex Kid in Miracle World na memória. Acho que foi ali que aprendi a jogar jokenpô – era como chamávamos a brincadeira de pedra, papel e tesoura. Lembro que jogava por mais de duas horas para chegar ao final de Alex Kid. Na verdade, o jogo ter um final já era uma enorme evolução. Foi exatamente nessa época que as primeiras reclamações sobre o tempo gasto jogando vídeo game começaram.

Mega Drive, Phantom System, Dynacom, Super Nintendo, a evolução passava por vários fabricantes e consoles. Cada um com seus jogos, até porque ainda estávamos falando de cartuchos. Foi então que conheci o Playstation, fabricado pela Sony, em 1994. Para começar, a mídia já era algo diferente. Saímos dos cartuchos para o CD. Os jogos tinham uma realidade impressionante para a época e, naquele momento, ficava mais clara a relação entre a evolução da capacidade computacional e os consoles. O maior exemplo de como esses mundos estavam interligados pode ser percebido quando traçamos um paralelo entre o supercomputador ASCI RED, lançado pela Intel em 1997, e o Playstation 3, que foi lançado nove anos mais tarde. O ASCI RED custava "apenas" USD 55 milhões de dólares para alcançar 1.3 teraflops em uma área de 150 metros quadrados, enquanto o PS3 tinha o preço de USD 449 dólares e chegava a 2.1 teraflops, além de caber em qualquer mesinha.

Com toda essa evolução exponencial da capacidade computacional, as possibilidades multiplicaram-se. Diga-se de passagem, isso já era bradado por Gordon Moore, cofundador da Intel, nos anos 50. E, quando chegamos aos anos 2000, coloca-se nessa conta um fator que tem mudado nossa vida, a internet.

O que antes era limitado somente ao que acontecia localmente, por meio de controles conectados por fios a uma plataforma isolada, rompeu as barreiras de casas e antigas locadoras para ganhar o mundo, literalmente. E isso fez com que começássemos a pensar em diferentes maneiras de conexão e plataformas cada vez mais globalizadas. Ah sim, houve iniciativas embrionárias dessa comunicação nos anos 80, como o GameLine, serviço de distribuição de jogos em rede desenvolvido para o Atari 2600. Mas nada que se compare ao que a internet nos proporcionou no início dos anos 2000. Foi exatamente nesse ponto que tivemos uma ruptura também no modelo dos jogos, onde um fator se tornou essencial: estarmos conectados.

E com todas essas evoluções em absoluta convergência, novas funcionalidades e desafios passaram a fazer parte do mundo dos games que conhecemos atualmente. Os jogos estão cada vez mais próximos da realidade, abrindo infinitas possibilidades, ao ponto de aproximar ainda mais o mundo virtual do real ao acessar tecnologias de VR (realidade virtual), AR (realidade aumentada) ou XR (realidade estendida). Com isso, os vídeo games deixaram de ser vistos como algo supérfluo, sendo tratados apenas como entretenimento, e passaram a fazer parte do nosso cotidiano, não só com os jogos mas também como peça fundamental em frentes como educação e saúde, de uma forma nunca antes imaginada.

Com essa evolução, os players se especializam cada vez mais em diferentes áreas, seja com conteúdo para entretenimento, como vemos atualmente a Netflix "gamificando" filmes, ou mesmo laboratórios de saúde introduzindo VR para aplicação de vacinas infantis. Por outro lado, intensificou-se o grande desafio de plataformas como Playstation Network ou XBOX Live em entregar algo que tenha a capacidade de proporcionar uma experiência única para seus usuários.

Atualmente, vemos que esses mesmos players, como o Google com a plataforma Stadia e a junção da Microsoft e Sony através do XCloud, têm se aproveitado de tecnologias como Cloud e 5G para então poder entregar diferentes realidades. O Stadia, plataforma de cloud gaming lançada pelo Google no início do ano, promete entregar 10.1 teraflops, por exemplo. A solução de games por streaming roda sobre a plataforma de computação em nuvem da empresa, o Google Cloud. A iniciativa, contudo, não é única. Apple, Microsoft e EA são apenas algumas das inúmeras empresas envolvidas em lançar produtos com objetivos parecidos.

Para que toda essa evolução seja possível e o gamer tenha acesso à melhor experiência possível, é necessário um suporte físico por trás. E a interconexão pode ter um papel fundamental no universo gaming. A interconexão é a conectividade privada, ultrarrápida e segura entre empresas, organizações e instituições. As novas realidades do universo dos games somente serão possíveis se forem construídas e entregues através de um mundo que possa absorver toda a demanda computacional necessária, mas que, principalmente, esteja completamente conectado.

Seja na indústria de games ou em outras diversas que utilizam soluções hospedadas em cloud, a arquitetura orientada à interconexão vem mudando o modelo de negócio das empresas. Antes, eram utilizados data centers em locais isolados, e quanto mais longe o seu consumidor está, pior é a experiência que que ele terá. Hoje, com a computação em nuvem, o modelo é invertido. A maioria das grandes empresas são altamente distribuídas e não mantém nada centralizado.

E o universo dos games nos traz um exemplo muito claro da importância da experiência do usuário. As empresas deste mercado já perceberam a importância de oferecer aos seus clientes os melhores serviços do mercado e, para isso, devem adotar os melhores modelos possíveis. Seguindo essa tendência, as grandes corporações do segmento de games investem cada vez mais na interconexão para serem mais competitivas e se tornarem cada vez mais globais.

*Por Diego Julidori, gerente de product management da Equinix Brasil

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