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Tendências nos meios eletrônicos de pagamentos

A TI está revolucionando os meios de pagamentos, porém, é essencial pensar no conforto do usuário e a proteção dos dados gerenciados

Aline Deparis*

23/05/2019 às 12h05

Foto: Shutterstock

Em todo mundo, a área financeira tem passado por profundas transformações recentemente: a internet e a mobilidade reduziram a quantidade e serviços físicos das agências bancárias, novas ameaças de ataques digitais e de fraude motivam as empresas a pensar sua segurança digital e tendências como nuvem, internet das coisas (IoT) e big data têm alterado a forma como a experiência do consumidor é entregue.

O modo como pagamos contas impacta muito na experiência de um serviço. Quantas vezes você deixou de fazer uma compra pois o estabelecimento não trabalhava com o meio de pagamento que você tinha a disposição? Os meios eletrônicos de pagamento, cada vez mais inovadores, nos oferecem formas rápidas e seguras de realizar transferências de valores para empresas ou indivíduos.

São centenas de opções de pagamentos, tanto em lojas físicas quanto eletrônicas, e ainda assim, quando você precisa comprar algum item, ainda não tem a garantia de que a loja implementou alguma dessas formas de pagamento. Um artigo que faz a análise de experiência de usuário (UX) para explicar o quão confuso é para o consumidor a falta de uma identidade única de pagamentos em diferentes meios de pagamento, recomendo essa leitura

'Invisible payment' ou 'pagamento invisível' é uma realidade. Ao usar um Uber com cartão de crédito, por exemplo, você consome o serviço e um terceiro faz o pagamento ao motorista. Não foram poucas as vezes que precisei usar um táxi e ao chegar no destino simplesmente desejei um ‘bom trabalho’ e desci, esquecendo que precisava pagar o taxista diretamente.

Imagine um sistema de pagamentos em que você não precisa de nenhuma ação para fazer nenhum pagamento, sem dinheiro, sem cartões, nem cheques. Uma das iniciativas por exemplo é o Amazon Go. Este lançamento da Amazon em teste nos EUA permite que você entre na loja, pegue qualquer item e saia, sem nenhum tipo de check-out físico. Na prática você precisa baixar o aplicativo e usar o QRCode na entrada da loja. Usando câmeras e sensores, além de técnicas de inteligência artificial (IA), o sistema detecta qual ou quais itens você pegou e faz o débito automaticamente do seu cartão de crédito registrado no app.

Tecnologias e startups na área estão cada vez mais em evidência. Segundo estudo da CB Insights, somente em 2018 as fintechs conseguiram arrecadar US$ 40 bilhões em investimentos e segue crescendo. Isso parece bastante mas se comparado com os lucros dos bancos no mesmo período onde a Corporação Federal de Seguros de Depósitos(FDIC) divulgou o valor de US$ 237 bilhões (somente em lucros), as fintechs ainda possuem um mercado gigantesco para serviços, produtos, integrações e facilidades para a sociedade.

Mesmo com todo o avanço da tecnologia, centenas de opções, bancos digitais, incentivos e serviços online, o papel moeda, ou dinheiro físico, ainda responde por mais da metade do uso para pagamentos no Brasil (52%), segundo dados do Banco Central em seu estudo O Brasileiro em relação ao dinheiro. Este percentual vem gradualmente caindo uma vez que cinco anos antes, em 2013, era de 57%, mas em um país de dimensões continentais como o nosso, com sérias dificuldades no acesso à tecnologia de forma ampla e democrática para todos, é de se esperar uma demora maior mesmo.

Vários países já estão avançados na estratégia de descontinuidade do dinheiro físico como nós conhecemos. A Suécia e a Noruega são exemplos de países onde quatro em cada cinco transações já não envolvem dinheiro físico. A mesma expectativa se tem com a Dinamarca em até dez anos. Alguns países como o Japão e Portugal, por questões culturais, as pessoas ainda usam dinheiro “fiat”.

O primeiro “cartão” apareceu apenas em 1946 em Nova Iorque, projeto do bancário John Biggins, o dinheiro tradicional em papel surgiu apenas em 1661, mais de dois mil anos depois da criação da primeira moeda oficial pelo Rei Alyattes de Lydia. Já em 2009, surge a primeira criptomoeda que utiliza a tecnologia blockchain para pagamentos de forma confiável entre partes que poderiam não se confiar, sem uma entidade central, e alcançando enorme relevância menos de 10 anos depois por meio de diversas moedas e negócios diferentes que usam a mesma base tecnológica.

Um estudo promovido pela Mastercard revela que 93% dos portugueses andam sempre com dinheiro na carteira em uma média de mais ou menos 22 euros. Além do dinheiro, 7 em cada 10 portugueses, tem um cartão de débito e, em média, mais de 53% tem um cartão de crédito. Um ponto interessante do estudo é que 55% confirmam ter um cartão com a tecnologia ‘contactless’ e, destes, 66% dizem utilizá-lo regularmente para pagamentos de até 20 euros.

Tecnologias como ‘contactless/NFC’, ‘mobile’, blockchain, IoT, IA e ‘wearables’ estão sendo cada vez mais comuns em propostas e soluções para o futuro dos meios de pagamentos. De acordo com a IPI’s Research em pesquisa realizada sobre meios de pagamento, estima-se que em 2021 exista pelo menos dois bilhões de dispositivos com tecnologia ‘contactless/ NFC’ em todo mundo, exceto América latina, e o Brasil é uma grande aposta no cenário mundial em relação a adoção dessa tecnologia.

Uma vez que estamos cercando o consumidor de tecnologias para oferecer serviços de forma mais rápida, com menor custo e mais praticidade, também se geram riscos de segurança e privacidade. Os cartões que utilizam tecnologia RFID e NFC, por exemplo, podem ser usados e clonados por alguém que sentar do seu lado em um transporte público, restaurante ou livraria, sem você saber. Para proteger os cartões existem inclusive carteiras físicas com mecanismo de proteção contra uso e clonagem por aproximação indevida.

Os dados pessoais e até mesmo sensíveis compartilhados pelos dispositivos vestíveis precisam ser protegidos pelas empresas, dispositivos e protocolos de transmissão. Nos países da união europeia, onde a GDPR já se encontra em vigor desde maio de 2018, temos diretivas como a PSD2 (Regras para Serviços de Pagamentos) buscam proteger os dados pessoais dos cidadãos que são armazenados pelos bancos e provedores de serviços financeiros. No Brasil, que possui um dos sistemas financeiros mais completos e seguros do mundo, os bancos e fintechs terão que adaptar sua forma de trabalho com a entrada da LGPD em vigor a partir de agosto de 2020.

Seguindo esta linha de preocupação com a privacidade e proteção de dados pessoais, o Banco Central do Brasil anunciou que irá começar o processo para implementar o 'open banking' no Brasil, que é o sistema financeiro aberto. A criação faz parte do Comunicado 33.455, que está alinhado com a Lei de Proteção de Dados Pessoais.

Assim como a identidade digital de um cidadão tem por tendência virar ‘mobile’, os pagamentos digitais serão cada vez mais mobile onde o dinheiro físico e cartões dão espaço ao celular.

Um cidadão de posse de uma identidade digital em blockchain, com garantia de não-repúdio de suas ações em relação ao resto do ecossistema, poderá realizar pagamentos usando a sua identificação pessoal e o comerciante receberá o valor pelo protocolo ou empresa que lhe oferecer as melhores vantagens. Existir uma identidade digital mundial é o desejo de diversas organizações, mas beira a utopia ‘imagine all the people’ ser realidade em produção a curto/médio prazo, com um percentual de aceitação do mercado suficiente para valer a pena o esforço. Mesmo identidades digitais em países não são projetos simples, sendo a Suíça e Estônia realidades mais avançadas neste quesito.

Ainda assim, a autenticação biométrica em vários fatores poderá ser usada para identificação de indivíduos, como reconhecimento pela íris; mapeamento de veias e até análise do batimento cardíaco.

Quando me perguntam sobre o futuro, respondo com convicção: isso é só o começo. Para o cidadão o futuro dos pagamentos digitais é ser transparente, seguro e com o menor esforço humano possível, contanto com o aprendizado em máquina de uma IA avançada que ajude tanto vendedor quanto consumidor a cumprirem seus objetivos.

*Aline Deparis é presidente da Assespro-RS

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