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Web Summit: o que buscam os 70 mil participantes?

Evento focado em empreendedorismo reúne profissionais em busca de respostas

Vitor Cavalcanti

12/11/2018 às 8h16

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São quatro dias exaustivos, principalmente para aquele que se propõe a acompanhar uma agenda intensa de conteúdo, visitar algumas das centenas de start-ups expondo suas soluções e ainda participar dos eventos noturnos. No último dia, surpreendentemente cheio, pessoas ainda disputavam espaço em palcos como Content Makers, Modum e Forum.

Caminhar pelos pavilhões da Feira Internacional de Lisboa parecia estar em meio a um mercado público, onde, em vez de bancas de frutas e restaurantes de comidas típicas, as pessoas disputavam atenção e espaço para entender o que acontece e o que acontecerá num mundo amplamente dominado pela tecnologia.

Mas o que de fato querem as 70 mil pessoas que sacodem Lisboa durante o Web Summit, um evento ainda bastante focado em empreendedores? Na minha opinião simplista, respostas. Respostas para um mundo complexo, para uma transformação avassaladora, para sociedades que se transformam onde a maioria assiste atônita ao que passa sem saber que sua vida já está seriamente impactada e seu destino traçado, respostas para europeus jovens, bem formados e desempregados, resposta para um tempo que urge e faz com que as pessoas insistam na falta de tempo mesmo quando estão em um local onde o tempo deveria ser investido em conhecimento e conexões.

A programação de conteúdo do Web Summit traz essa caixa de pandora dos tempos atuais, não faltaram discussões sobre inteligência artificial, criptomoedas, cibersegurança, mas também estiveram presentes fóruns pesados sobre saúde, sustentabilidade, ética, privacidade do usuário, criatividade, moda, conteúdo e como esses três são impactados por tecnologia.

A questão, no entanto, fica na absorção do conhecimento, principalmente quando a variedade é tão grande e a duração média das discussões fica em torno de 25 minutos. Temas complexos acabaram sendo tratados superficialmente, sobretudo, na arena Centre Stage, que traz o emblemático palco principal do Web Summit.

E mesmo com palestras curtas e, muitas vezes, superficiais, era visível que, em diversos momentos, as pessoas se dispersavam e pareciam mais preocupadas com suas redes sociais ou com o que acontecia fora daquele local, aproveitando momentos de desatenção cerebral para responder a um e-mail ou, no caso dos muitos brasileiros, mensagens de WhatsApp.

Se essas pessoas buscam respostas para questões complexas em eventos como o Web Summit, elas precisam antes resgatar suas capacidades de pensamento crítico e entender que, para buscar um lugar ao sol, num mundo influenciado e, em alguns setores, dominado pela tecnologia, será necessário muito mais que um comentário supérfluo sobre um tema da moda.

De maneira geral, o que funciona muito bem no conteúdo do Web Summit são os palcos focados, como o Content Maker, Creatiff, Modum, binate.io e Forum, onde as palestras e painéis, ainda que de pouca duração de alguma maneira se complementavam e davam ao participante uma noção mais ampla do que está acontecendo e do que está por vir.

Conexão com novos negócios

Na área de exposição o volume de startups organizadas por temas/especialidades facilitava muito a movimentação e a conexão com aquilo que realmente interessava. Me cativou muito a participação do inventor da web Tim Bernes Lee, que levou sua missão do Contrato para Web, já com apoios de peso como Google, França e diversas outras empresas.

Na visão dele, da maneira como vem sendo conduzida, a web pode ser cada vez mais danosa ao usuário. "Privacidade é um direito fundamental? Não é porque as pessoas publicam fotos o tempo todo que elas querem que essas imagens sejam analisadas e tais resultados vendidos como hábitos de compra. Assim, vejo sim como direito fundamental”, provocou.

Já em nomes mais genéricos, porém, não menos interessantes, estavam, por exemplo, o CPO do Netflix, Greg Peter, levando sua visão sobre tecnologia e produção de conteúdo e como o mundo digital propiciou uma revolução na forma como produzimos, distribuímos e consumimos conteúdo.

“A séria alemã Dark ficou como top 10 em 136 países, quando um conteúdo alemão teve tanto sucesso? Isso é o poder de storytelling com internet e a tecnologia Netflix”, sacramentou, lembrando, na sequência, dos investimentos pesados feitos em dublagem para que, independentemente do idioma, as dublagens parecessem o mais natural possível.

Foi interessante também a participação do estilista Alexander Wang e todo seu posicionamento e visão antecipada sobre como seria a publicidade do mundo da moda e o poder de influência que as redes sociais teria, utilizando essas ferramentas para se aproximar ainda mais do seu público e, com isso, ainda ganhar ideias para suas produções, e do Chief Data Officer (CDO) da Condé Nast, Karthic Bala, mostrando como a tradicional editora de revistas passou a ser uma companhia totalmente focada em dados (respeitando todas as regras de privacidade dos leitores) e fazer uma virada nos negócios. “Todo mundo precisa encontrar uma resposta fácil em três cliques”, frisou.

Quem sabe esses bons exemplos de discussões e apresentações mais estruturadas apareçam em número maior nas próximas edições e que os próximos dez anos de Web Summit, no País que um dia desbravou o mundo por uma inquietude e inconformismo de que a terra era muito mais que aquilo que conheciam, sejam de descobertas e discussões ainda mais intensas sobre todas as possibilidades que a tecnologia pode gerar para todos.

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